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sexta-feira, 29 de abril de 2011

As torradas queimam.

Tudo preparado: chapa quente, manteiga a postos, pão fresquinho. Na cabeça, a receitinha infalível que dá pra fazer de olhos fechados, porque tá guardada na memória de muitos cafés feitos com pais, irmãos, amigos, vividos ao longo de uma vida que começa sempre com cheiro de pão tostadinho e café-com-leite.
Mas não dá certo. Elas queimam. Falta algo, algo novo que passou a ser ingrediente essencial, imprescindível pras torradas acontecerem. Falta o olhar na nuca, atencioso e curioso, aquele que observa a feitura dessas delicadas fatias e que se delicia nelas, docemente, pela manhã, com seu suco de laranja. E com risos. Esse momento de dividir sabor e calor, de olhar quieto nos olhos ainda avermelhados e nos rostos inchados dos travesseiros traz em si um conforto que nenhum dos dois explica. De onde veio isso? Por que parece estar tudo no lugar certo quando há esse encontro?
Na geografia desse momento, há muitos quilômetros no meio, que consigo trazem um quê de estar
inquieto e perdido. Não há como burlar essa regra (ainda), nem como se esquecer dela, quando o olhar de esguelho percebe as malas no canto do quarto. Os minutos, cada um deles, é de fogos de artifício. Ou apenas de pequenas fagulhas, que não cessam de pipocar, seja no olhar, nas mãos ou na voz. Ainda assim, um aperto, teimoso, insiste em ficar no peito, como que prenunciando os intervalos entre os fogos. Vai ter mais? Quem sabe disso, afinal? E de quem foi a idéia de soltá-los, heim?
No meio disso tudo, das torradas douradas, do café e do suco, ficam os pensamentos, mudos, sobre o que há de ser feito. A ansiedade teima em querer tomar as rédeas do impulso. Controle, mesmo, não há; há um quê de "eu quero", "eu preciso" e "eu sinto falta" que é indomável, e nem todos os planos do mundo poderiam dar conta. Porque não se dá, de fato, conta do que se sente, do que se vive, do que pulsa dentro da mente e do que arrepia a pele. E quando há fogos, há, e é deixar explodir, porque esta é a natureza desse fenômeno.
Não, não tem uma dependência, as dúvidas não impulsionam ações impensadas, sabe? Não se trata disso, não é viver em função de alguém ou de algo. É o que isso traz pra dentro da gente, o que realiza de felicidade ou de plenitude na nossa alma.... Isso tudo é libertador, traz um mundo novo, um universo de possibilidades. Melhor do que as tantas restrições, do que as milhas e datas planejadas, há as muitas opções de escolhas e prazeres, de caminhos e lugares que podem ser vividos. Sempre lua-de-mel, mas cercado de realidade. Encantador, no meio de tanta correria e horários e saudade. O mau humor, um traço de humanidade e de verdade, que pontua a veracidade dessas vidas que insistem no querer, apesar de tudo que teima em ser impecilho. Tá ruim, mas é bom, sempre bom. E pode ser ainda melhor. E quem viver, verá. E sentirá. E comerá torradas!

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