Me procure!

domingo, 6 de novembro de 2011

Notável.




Desde criança, meus pais me diziam que eu era curiosa e enxerida; olhava tudo, mexia em tudo, queria tudo e tinha que saber de tudo. Volta e meia era pega no flagrante: abrindo gavetas pra ver o que guardavam, experimentando hidrocor vermelho para ver como ficava se eu pintasse os lábios, virando potes de talco na cabeça pra sentir o cheiro de flores e o corpo magicamente transformado em lua cheia. Era um instante de silêncio, e lá estava eu, fuçando, mexendo, remexendo e tomando conta. Momentos vibrantes pra mim, enlouquecedores para eles.

Cresci, e veja bem, ainda sou enxerida. Estou o tempo inteiro querendo saber, sabe-se lá de quê. O negócio é saber, e ver e ouvir, é entender. Quão custoso isso torna minha vida.... a carreira então, uma loucura. Até hoje, com quase 38 anos, ainda quero fazer todas as faculdades que queria aos 16 (Letras, História, Geografia, Arquitetura, Medicina, Fonoaudiologia, Biologia, Química, e por aí vai). Difícil fazer a vida ter foco quando o que estamos tentando fazer contar todas as estrelas que vemos e experimentar todos os sorvetes do mundo! Vai montar seu curriculum, vai! Duvi-de-o-dó!

Mas em todos os momentos, de todas as coisas que me quero sabida, de cada minuto que tento capturar pra mim, o mais importante é o que vejo, o que meus olhos percebem e enxergam. Os detalhes, as nuances, a dimensão, a proporção. Sou extremamente perceptiva, e (quase) nada me escapa. Muito bom para todas as carreiras que escolhi até agora, mas ainda mais útil para notar o essencial: os pequenos milagres, as mágicas cotidianas, os encontros e rituais de todo dia. E nisso eu incluo absolutamente qualquer coisa que me cerque. Sim, adoro gente, adoro estar cercada de pessoas e observá-las em seus passos e piscadelas. Cada uma me traz algo novo, um quê de irresistível, gestos e preferências que me seduzem ou me dão arrepios, e fazem de mim nova de segundo em segundo. A cada minúcia que percebo, já não sou mais a mesma, porque uma invasão de pensamentos, sentimentos, constatações e opiniões me trazem infinitas possibilidades novas. Ou melhor que isso: a cada minúcia, um silêncio novo se faz em mim, e tudo, da mesma forma, muda. É tanto o que nos impulsiona quanto o que nos pára; notar e perceber algo me rejuvenesce e me amadurece, me transforma e me confirma, bagunçando as certezas ou renovando as dúvidas.

Ah, e tem também o que não é notável, o que não foi percebido, e talvez, nunca seja. Que infinidade de possibilidades contida aí! Uma imensidão de escolhas e de decisões e de encontros que não acontecem unicamente porque algo me escapou. Desatenção, irritação, preguiça, cansaço, tanta coisa pode nos fazer não ver e delegar à insignificância detalhes e pessoas que seriam fundamentais.... ou não seriam? Pois é fato que, assim como eu, vocês todos querem tudo, de uma forma ou de outra. Esganados, gulosos, egoístas, achamos que se tivermos tudo seremos mais felizes, alcançaremos a riqueza, venceremos o mundo. E de que serve?

É comum que, mesmo com diplomas e muitos contatos, e línguas fluentes e milhas pelos continentes, nada sirva quando se precisa aprender a trocar uma fralda de bebê ou pregar um botão. Nos perdemos facilmente ao ter que fazer uma criança parar de chorar ou entender como funciona uma amizade. Bem, eu e minha curiosidade também temos a petulância de querer "dominar o mundo", buscando saber até do que não se pode entender. Até tento me controlar, mas ai, como me dói quando não consigo dar um jeito nisso ou naquilo, ajudar alguém numa tarefa, descobrir uma informação indispensável para um amigo, consertar alguma coisa que quebrou. Dá coceira, comichão, insônia. Me reviro dentro de mim e me lanço nas pesquisas loucas, acionando qualquer pessoa ou lugar que tenha a mínima ligação com o que preciso, na busca daquilo que preciso saber. Não sossego enquanto não descubro. Daí os rompantes de euforia e a necessidade das noites viradas, que só são freadas com hibernações intermináveis e várias horas de músicas no repeat para me desligar desse frenesi. Ufa. Uma hora eu consigo e páro. Mas só pra recuperar o fôlego, pois os olhos inquietos lá se foram, encantados com aquela cor de cabelo fantástica que passou na esquina. Ou com aquele cheiro de algo, nossa, que me trouxe à memória aquela tarde que passei com minha avó quando eu era moleca, e eu não consigo lembrar do que era o tal cheiro..... E lá se vai a minha energia toda, atrás de querer saber de novo, enxerida e fofoqueira, querendo saber das cores e sensações que passam por mim, buscando fórmulas mágicas que decifrem os sentimentos e inventem remédios para as mais inéditas vontades e ânsias, querendo entender que sim, tudo nessa vida tem jeito.

Pára e olha em volta. É de curiosidade que se vive. E de pensamentos e atos impulsivos, e de silêncios criativos. Mas sempre de olhos abertos.

sábado, 13 de agosto de 2011

Ver.

Olha. Suspira, olha de novo. Atenta pro piscar, que não acontece. Quem pisca é a alma, que flerta suave, sem pressa. Os laços surgem, mágicos, e reforçam o silêncio que fala alto. A respiração volta. Tinha fugido; ciumenta, havia perdido o lugar, a vez. Mas retoma seu ritmo, afirmando que é preciso continuar a viver. O momento está ali, palpável como o mundo que o cerca. É único, é intenso, é fato. Consumou-se a união de esperanças.

Transparência.

Olhares. São muitos os que cruzam o nosso, todos os dias. Poucos ficam na retina, gravados, como únicos ou merecedores de atenção; outros marcam exatamente por serem tão repulsivos ou grosseiros que precisam ser apagados com o solvente de nossa força de vontade. Vez dessas, fui atropelada por um que me tirou do prumo. Como é possível que alguém que nunca te viu, te olhe e te invada de tal forma, que é como se essa pessoa fosse conhecedora dos seus segredos e saberes mais íntimos, sem saber sequer teu nome?
O fato é que as pessoas ainda me surpreendem.... e não pelo lado ruim. Pelo melhor dos lados, pelo reflexo delas nas coisas simples, nos atos mais despretensiosos, na minúcia de seus detalhes. Sim, ainda é viável obter bondade, ter o puro e singelo gesto da gentileza e sorriso no dia-a-dia. Não, é verdade, não deixei de ser sonhadora, disso jamais abrirei mão. Mas é preciso olhar além, deixar a pieguice de lado, ou o lado "pollyanna", para que se extraia o que é real, e não uma doce ilusão passageira de pureza cor-de-rosa. Notar o outro, primeiro passo, já não é assim tão fácil. Somos educados e treinados a desviar o olhar, a olhar de esguelho, a suprimir sinceridade para ganhar no terreno da educação polida, dos costumes artificiais. Ou pior, o oposto nos é empurrado goela abaixo, numa avalanche de autonomia e liberdade de expressão que nos permitiria - seria mesmo? - expôr os pensamentos e opiniões mais crus ao mais desconhecido dos colegas.
Mas que difícil é ser apenas transparente. Deixar-se enxergar, sem que se envergonhe ou se sinta invadido, é duma complexidade ímpar, exercício das mentes mais criativas ou coerentes, creio eu. Poucos são os que se permitem ser vistos, pois ficar em evidência é faca-de-dois-gumes, é ser a bola da vez, é ser aquele que tá no meio do elevador, com quatro cantos ocupados.... Lugar corajoso de se ocupar, digno dessa mesma criatividade e coerência que rege esses corações.... A estes, meus aplausos, meu orgulho, meu agradecimento. Todo dia, repito: obrigada por me fazerem ver a vida acontecer. Do jeito que ela deve ser: boa.

sábado, 30 de julho de 2011

Brisa.

Noite linda. Ceú estrelado. Música ao longe, mas longe demais. Enxaqueca e preguiça. Não, nada disso. No ar, um perfume novo, ou será uma sensação apenas? Algo bom tá vindo, trazido quem sabe pela brisa do mar, não muito distante daqui.... vem e não demora. Ah, é sensação, aquela de que você comprou a carta certa do baralho pra bater, ou de que acertou no sal pra receita que servirá aos amigos. Coisa boa de sentir, sabe, enche o coração de uma alegria simples e benquista.

Ah, olha, eu sonho, viu. O tempo todo. Porque é de graça, porque ninguém manda nos meus delírios. porque faz bem e acalma. Não me dou ao luxo de escolher os melhores, nem os certos, sonho é com tudo que me dá na telha, com o que me comove e me mobiliza. Com o que dá e com o que não daria de jeito nenhum. É meu, oras, o tal do sonho, ponho nele o que eu quiser. E sou sim, feliz com eles, porque são meus sonhos, delírios, devaneios, e neles me perco e me acho.
Às vezes eu murcho. Sem problemas. Só dá pra permanecer cheia se vc se permitir perder o ar antigo e ser soprada de novo. E eu quero sempre estar repleta de ar novinho em folha. E quente, recém saído dos pulmões do acaso. Assim eu vôo. E chego nas estrelas. E dou a volta no mundo. Eita coisa boa de sentir!

sábado, 25 de junho de 2011

Perto longe.

por que não somem as dores e todos aqueles que as causam?
por que teimam em ficar perto, presentes, intensos, como fogueira que cessa mas mantém suas brasas acesas e prestes a incendiar tudo de novo?
melhor seria se se mudassem, se partissem pra longe, pra outra, pro raio-que-os-parta, e nos deixassem livres, ainda que ardidas e doloridas, porque essa dor cessa, mas junto deles, é impossível haver paz.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Vou-me.

Algumas brisas passaram por mim essa semana. Nenhuma ficou.
Todas levaram algo de mim.
De nenhuma delas, algo sobrou.
Sigo, vivo, bufo e digo: vou-me embora.
Aqui não há mais nada, agora.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Quando passa?

Apaixonada por gente, sempre estou falando e ouvindo, tentando ouvir mais do que falo. Caminho pra sabedoria - dizem. E é por querer atingir um grau de sabedoria que vivo pensando e repensando, repassando e remoendo fatos e cenas que acontecem todo dia, aqui e ali, diante dos meus olhos. Por todos os lados, tudo me atrai: as mazelas da vida que marejam as vistas, as fofocas que pipocam tal como milho na quentura da boca das marias-faladeiras, os posts sempre cômicos e surpreendentes das enlouquecidas criaturas que ficam penduradas no "twiit" e no "feice". Volta e meia, me pego às gargalhadas, para no minuto seguinte me constranger ou emocionar com alguma outra coisa, e tudo-ao-mesmo-tempo-agora; coisas desse bizarro mundo pop-up que pula na nossa tela ou toca ensandecido no celular.
O fato é que, queira você ou não, o passado volta. Podemos ocultar, bloquear, deletar, mas por meio desses tantos meios e tantas redes que se entrelaçam e nos enroscam, ele volta. Vez ou outra, de foto nova, uma bela roupagem, ou um charme que antes não estava lá. E nos enlaça. De novo. E aí, como faz?
Diante de uma dessas, fiquei a me perguntar: quando passa? Quando é aceitável ou viável ou plausível que aceitemos o passado de volta? Há que se analisar bem, mas pensemos, há o que se analisar? Já dizia minha avó, quem muito pensa, pouco faz. Se pararmos para pensar no que houve, tintim por tintim, ah, aí é que a gente não aceita ele de volta não. Porque não dá, né, você lembra do que aconteceu, do que fulano ou cicrana fez? Imperdoável! - será mesmo?
Ou será que esse cruzamento louco de redes e amigos, e contatos e sentimentos, e favores e surpresas, e paixões e amores nos fez fracos em nossos valores, e por que não, permissíveis? Nossa força de vontade deixa de existir, pela pungência dos pedidos de amizade e de mensagens fechadas, de e-mails e pequenos recados em telas instantâneas?
E onde fica então o falar, ao vivo e a cores, o olho no olho, a sinceridade do discurso que escutamos, e ao qual precisamos responder com sorrisos ou de voz embargada? Perdeu-se, nesse mundo plugado de emoções editadas? O que se dizia antes, tinha-se dito, não tinha volta. Era aquilo e só. Falou besteira, paciência. Falou demais, paciência.... Contou o que não devia? Xiii! Paciência! Era um tempo de pensar antes, pra evitar o caos, o disse-me-disse, a fofoca pronta pra ser espalhada, o amor desnudado. Tudo que tem valor, que tem calor, que tem peso, corre o risco de se desfazer, em mensagens que podem ser ou não enviadas e apagadas e mexidas? Quero não, obrigada. Quero a presença. Ainda que plugada, quero o ao vivo. A transmissão direta. A conexão wi-fi. No ar. Sabe assim?
E quanto ao prazo, quanto ao receber ou não o passado, prefiro decidir quando não estiver conectada na tela, mas sim conectada com minha alma, meu coração, minha força. E deixar voltar o que conta a favor, nem que seja só pra rir junto, ou pra conversar com a afinidade que exietiu um dia. Nem que ela exista apenas em parte....

terça-feira, 10 de maio de 2011

Nota para a posteridade.

Amar é um privilégio. Permanecer amando, uma dádiva. Ainda que só, amar (ou estar disponível para) é sempre um direito, uma escolha, uma postura que se adota ou não, que se quer ou se descarta.

Eu escolhi: decido continuar amando.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Vê: acontece agora.

Invasão de espaço, de sentidos, de desejos. Turbilhão de quereres. Tanto num tempo sempre tão curto, mas que é interminável quando acontece. Respiros. Suspiros. Olhares e calor. Olhares e receios. O medo de ter achado algo que pode se perder invade. É tão vivo, pulsante, tá ali na sua frente, mas e se acaba? É de verdade, isso tudo? É isso mesmo, bom assim, quente assim, completo assim? Que reações causa! Se o silêncio funciona, o que daria errado? Ah, sim... o silêncio só. O que é feito na distância, mesmo que de alguns centímetros só, mas que é enorme entre os sentimentos. Aquele silêncio da nóia, da análise, da inquietação de tentar explicar o que devia (só) ser sentido. Não. Melhor expulsá-lo, ele não serve mais agora. Agora é ter apenas esses pulsantes beijos, arrebatados no ímpeto de se fundir; é ter o entrelaçar de mãos, a dança com os dedos na palma da mão do outro. É empurrar carrinhos pelo mercado, tentando adivinhar desejos por guloseimas e cardápios gentilmente pensados. É deixar-se levar por uma rotina de "fiz pra você" e de "vamos?" tão ternos e despretensiosos que derrubam qualquer medo de não ser o centro do querer de quem te acompanha. É viver o hoje, sem pensar no mais tarde ou no outro dia. Cientes de que eles existem. Mas também de que não está na hora deles ainda. Então, fica aqui, escuta minha respiração, deixa eu olhar teus olhos. E me perder neles. Ah, esse é o único lugar onde importa ir agora.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

As torradas queimam.

Tudo preparado: chapa quente, manteiga a postos, pão fresquinho. Na cabeça, a receitinha infalível que dá pra fazer de olhos fechados, porque tá guardada na memória de muitos cafés feitos com pais, irmãos, amigos, vividos ao longo de uma vida que começa sempre com cheiro de pão tostadinho e café-com-leite.
Mas não dá certo. Elas queimam. Falta algo, algo novo que passou a ser ingrediente essencial, imprescindível pras torradas acontecerem. Falta o olhar na nuca, atencioso e curioso, aquele que observa a feitura dessas delicadas fatias e que se delicia nelas, docemente, pela manhã, com seu suco de laranja. E com risos. Esse momento de dividir sabor e calor, de olhar quieto nos olhos ainda avermelhados e nos rostos inchados dos travesseiros traz em si um conforto que nenhum dos dois explica. De onde veio isso? Por que parece estar tudo no lugar certo quando há esse encontro?
Na geografia desse momento, há muitos quilômetros no meio, que consigo trazem um quê de estar
inquieto e perdido. Não há como burlar essa regra (ainda), nem como se esquecer dela, quando o olhar de esguelho percebe as malas no canto do quarto. Os minutos, cada um deles, é de fogos de artifício. Ou apenas de pequenas fagulhas, que não cessam de pipocar, seja no olhar, nas mãos ou na voz. Ainda assim, um aperto, teimoso, insiste em ficar no peito, como que prenunciando os intervalos entre os fogos. Vai ter mais? Quem sabe disso, afinal? E de quem foi a idéia de soltá-los, heim?
No meio disso tudo, das torradas douradas, do café e do suco, ficam os pensamentos, mudos, sobre o que há de ser feito. A ansiedade teima em querer tomar as rédeas do impulso. Controle, mesmo, não há; há um quê de "eu quero", "eu preciso" e "eu sinto falta" que é indomável, e nem todos os planos do mundo poderiam dar conta. Porque não se dá, de fato, conta do que se sente, do que se vive, do que pulsa dentro da mente e do que arrepia a pele. E quando há fogos, há, e é deixar explodir, porque esta é a natureza desse fenômeno.
Não, não tem uma dependência, as dúvidas não impulsionam ações impensadas, sabe? Não se trata disso, não é viver em função de alguém ou de algo. É o que isso traz pra dentro da gente, o que realiza de felicidade ou de plenitude na nossa alma.... Isso tudo é libertador, traz um mundo novo, um universo de possibilidades. Melhor do que as tantas restrições, do que as milhas e datas planejadas, há as muitas opções de escolhas e prazeres, de caminhos e lugares que podem ser vividos. Sempre lua-de-mel, mas cercado de realidade. Encantador, no meio de tanta correria e horários e saudade. O mau humor, um traço de humanidade e de verdade, que pontua a veracidade dessas vidas que insistem no querer, apesar de tudo que teima em ser impecilho. Tá ruim, mas é bom, sempre bom. E pode ser ainda melhor. E quem viver, verá. E sentirá. E comerá torradas!